O coelho que atropelou o tamborim

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Gisele (dir.) e sua mãe, durante uma viagem ao Chile; ao fundo, o Valle Nevado. Foto - arquivo pessoal
Gisele (esq.) e sua mãe, durante uma viagem ao Chile; ao fundo, o Valle Nevado. Foto - arquivo pessoal

Foi no Carnaval que percebi o primeiro sinal: supermercados enfeitados com imensas pérgolas de ovos de Páscoa. O samba ainda ecoava nas avenidas, mas os corredores já estavam tomados por ovos e coelhos de chocolate, tudo aquilo embrulhado em papéis brilhantes e fitas de seda.

Dias depois, outra surpresa. Uma rápida passada pelo centro comercial revelou manequins elegantemente vestidos com casacos e botas das coleções de outono e inverno. Fevereiro mal havia começado e já se anunciava o frio, como se o calendário tivesse pressa.

Pensei: o que é isso tudo? Não era hora de dançar no compasso da avenida? Mas o que vi foram pessoas correndo apressadas, abraçadas a ovos coloridos, como se o presente fosse apenas uma ponte para o próximo consumo.

Confesso: quase me rendi. Os ovos eram lindos, os casacos tentadores e as botas, meu mais imediato objeto de desejo. Mas resisti. Voltei para casa com a sensação de que ainda é possível celebrar o agora sem antecipar o amanhã.

Para falar a verdade, resistir aos ovos não foi tão difícil; mas, em se tratando de roupas, me enquadro na categoria “a um passo de ser consumista”. Quase sucumbi, mas me contive. Amo especialmente as roupas de inverno — para mim, a estação mais elegante do ano. Roupas invernais compõem o visual, deixam homens e mulheres clássicos. Para quebrar o cinza, o ameixa, o marsala e o preto, a dica é usar um lenço colorido ou um chapéu estiloso.

Por falar em chapéus, lamento que, neste nosso país tropical abençoado por Deus, o acessório seja pouco usado. A exceção fica para o mundo do agro. Nesse universo, homens e mulheres desfilam pelo campo e pela cidade ostentando modelos maravilhosos. Não é o meu caso. Sou “urbanoide” com um pé no grotão. Nem por isso abro mão do acessório. Tenho dois: um na cor caramelo, que comprei em um brechó de Paris, e outro, uma boina, que adquiri de um vendedor ambulante em uma ruazinha de Buenos Aires. Ambos só saem a passear quando o frio aperta. Fora isso, ficam me olhando, à espera de um convite que demora a vir. Por quê? Uai, porque aquele inverno rigoroso da infância pertence à minha memória. Do tempo em que Mamãe nos vestia com camadas de blusas de lã por baixo da camisola de anjo. A coroa e as asas eram o ponto alto. Um deslumbramento.

Quanto aos casacos, para nos aquecer no rigoroso inverno chileno, adquiri dois bem estilosos e quentinhos. Comprei-os em um brechó de Belo Horizonte: um para mim e o outro para a Mamãe. Vestidas com eles, eternizamos em uma foto a nossa viagem ao Chile. Nela, os casacos só não roubam a cena porque, ao fundo, aparece o Valle Nevado, imponente e belo. Foi a última viagem que fiz com a Mamãe. Felizmente, ela conheceu a neve antes de partir para onde só vão os bons de coração.

Dito tudo isso, só agora percebo que, entre coelhos apressados e tamborins atropelados, o que realmente permanece são as lembranças: o frio da infância, os casacos compartilhados com Mamãe, a neve que eternizou nossa viagem. O futuro pode até vir embalado em celofane e em vitrines convidativas, mas é no presente que mora a verdadeira elegância da vida.

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