Pela lente do amor

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Chocolate quente remete a memórias afetivas.
Chocolate quente remete a memórias afetivas.

A gente tem que ter senso crítico, né mesmo?  Fazer uma autocrítica de vez em quando é bom. Minhas redes sociais são relevantes? Acrescentam algo à sua vida? Sei, não. Pode até ser que interesse à meia dúzia de abnegados, mas não acho que seja o suficiente para que meus posts sejam elevados aos trend tops.

– Uai, Gisele! Não tem como ser relevante se você só posta bolos. E para fugir da fama de monotemática, entre um bolo e outro, posta cafés.

Meia verdade. Sobre bolos, concordo. Posto os que faço para relaxar.  Ouvi dizer que pratico boloterapia. Nome autoexplicativo. Recomendo muito. Quanto ao café, posto porque adoro o sabor e o perfume; se é assim, compartilho com você. O que é bom tem que ser multiplicado.

Por outro lado, faço mais que isso. Posto tudo aquilo que admiro e que me encanta. Depois, sem pedir licença, intrometida que sou, compartilho nas minhas redes sociais.

Pra facilitar esse meu exercício contemplativo, tem gente que me empresta o olhar. Como sou “retratista” meia boca, nem tudo o que filmo ou fotografo tem qualidade. Por isso amplio o olhar por olhos alheios e sigo observando o mundo com curiosidade e afeto. Sou admiradora do legado de Nicodemos Rosa. Esse querido já não está mais entre nós. Há anos habita o infinito. É pra lá que também foi o Sebastião Salgado. Imagino os dois no cantinho deles, cada um a seu jeito, cercados por lentes e apetrechos do ofício, ambos focados nas belezas celestiais.

Por aqui, na nossa imensidão terrena, ando me engraçando com o olhar do Marcelo Prates, do Sidney Martins e da Júnia Garrido. Esses queridos sabem ver o mundo e as pessoas como poucos. Recentemente descobri o Igor Caldeira. Me encantei também. Enquanto isso, um dia se sobrepõe ao outro e nesse garimpo de belezuras vou campeando por novos olhares. É como na canção do Gil:

“Pela lente do amor uma grande angular

Vejo ao lado, acima e atrás

Vejo a vida mil vezes melhor

Abrir o ângulo, fechar o foco sobre a vida

Transcender pela lente do amor

Pela lente do amor, sou capaz de entender

Os detalhes da alma de alguém

Pela lente do amor, vejo a flor me dizer

Que ainda posso enxergar mais além

Pela lente do amor, vejo a cor do prazer

Transcender pela lente do amor

Do amor

Pela lente do amor”.

Nessa busca pela beleza e pelo inusitado sou como o querido Manoel de Barros, uma caçadora de “achadouros da infância”. Sempre que posso dou uma passadinha por lá. “Vou com a enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos (no meu caso, meninas) que fui”. Volta e meia as fotos e vídeos trazidos pela corredeira do algoritmo me levam a escavar recortes das memórias de infância.

Uma delas é o chocolate quente. Nesse tempo frio vem alguém e posta a imagem de uma xícara com chocolate. Daquelas bem fumegantes que só de olhar queimam a língua da gente. Não dá outra. Engato uma viagem pela memória e resgato o perfume do Toddy que Mamãe preparava no café da manhã. “Eta saudade que toma, que toma, que toma conta de mim!”  

Amava quando, na difícil aritmética da rotina, daquele tal de soma daqui subtrai dali, restava algum trocado. Era a deixa para a Mamãe substituir o Toddy pelo Ovomaltine. Um luxo. Uma delícia! Hummm!

O perfume e o sabor do malte me encantavam. Se já andei em busca desse cheiro de infância? Você não imagina o quanto. Mas como já foi dito e discutido à exaustão nas redes sociais, esse sabor não existe mais. Hoje, a maioria dos produtos à venda no mercado é só um achocolatado. Se de chocolate não tem quase nada, o que dirá de malte.

Por mais que eu tente, nenhum achocolatado atual me devolve aquela sensação exata, aquele conforto morno, aquela alegria de não ter pressa, de ser dono do meu próprio tempo, em um dicionário que desconhece a palavra finitude. Parte disso talvez se explique. É que perderam a alma do cacau. Hoje, os aromatizantes sintéticos e as gorduras vegetais reinam soberanos no lugar da manteiga de cacau. Se provou um provou todos. O sabor é o mesmo. Pura decepção. Industrializado demais para tocar o afeto.

Mas dando a mão à palmatória, talvez não seja só o chocolate que tenha mudado. Certamente eu também mudei. Mas sigo buscando o sabor que me fazia ficar em silêncio. Pela lente do amor sigo perseguindo o prazer do Ovamaltine (ou do Toddy) ao percorrer o caminho da memória.

4 COMMENTS

  1. Fecho os olhos…o cheiro doce do chocolate quente com canela…o sabor sem igual. Não sei, mas acho que salivei pelo cantinho dos olhos….

  2. O luxo lá em casa era Nescau com pão sovado. Sentava na frente da TV p/ assistir à sessão aventura, que passava após a sessão da tarde. Bons tempos!

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