Governo quer baratear tratamento que custa até R$ 3 milhões
O Brasil pode estar perto de um salto histórico no combate ao câncer. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou que o país vai desenvolver terapia celular em parceria com os países do Brics — grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A iniciativa abre caminho para que o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça, no futuro, um dos tratamentos mais avançados e caros da medicina atual.
Hoje, uma única terapia celular pode ultrapassar R$ 3 milhões por paciente, inviabilizando sua adoção em larga escala. O plano do governo é nacionalizar parte da produção para reduzir custos e ampliar o acesso à tecnologia. Mas o que são terapias celulares? Em quais tipos de câncer funcionam? E o que ainda impede sua aplicação no SUS?
Células que atacam tumores

Terapia celular é o uso de células vivas como tratamento. Em vez de moléculas químicas, como nos remédios tradicionais, o medicamento é composto por células modificadas em laboratório. A mais promissora dessas técnicas é a CAR-T cell.
Nesse método, os médicos retiram células do próprio sistema imunológico do paciente, alteram seu código genético para reconhecer o câncer e as reinfundem no corpo. “É uma forma de imunoterapia personalizada, feita sob medida para cada pessoa”, explica Ana Rita Fonseca, coordenadora do Centro de Terapias Avançadas do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo.
As células CAR-T recebem um novo receptor, que age como uma chave de busca e destruição. Essa técnica já é usada com sucesso em alguns cânceres do sangue, como leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. “Há relatos de cura em pacientes sem outras opções terapêuticas”, afirma Jayr Schmidt Filho, do A.C.Camargo Cancer Center, também de São Paulo.
No entanto, o desafio maior está nos tumores sólidos, como pulmão, mama e estômago. Nesses casos, o ambiente ao redor do tumor dificulta a ação das células modificadas. Ainda assim, há estudos em andamento, inclusive no Brasil, buscando superar essa barreira.
Tratamento promissor, mas inacessível
A aplicação da CAR-T é complexa. Primeiro, as células T são extraídas do paciente e enviadas para laboratórios no exterior. Lá, recebem modificações genéticas para reconhecer o tumor. Após cerca de três semanas, retornam ao Brasil e são reinfundidas no organismo.
O tratamento exige centros altamente especializados, já que pode provocar efeitos colaterais severos, como inflamação sistêmica e alterações neurológicas. Além disso, custa entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões por paciente.
Atualmente, o SUS não oferece terapias celulares. Alguns planos de saúde cobrem as técnicas aprovadas pela Anvisa, como Tisa-cel, Axi-cel e Cilta-cel, mas há discussões jurídicas sobre sua classificação — se são medicamentos ou procedimentos. Isso trava parte dos reembolsos e dificulta o acesso.
Para o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas, parte do custo se deve à dependência do exterior. “A fala do ministro mostra uma tentativa de nacionalizar etapas da produção, o que pode ajudar a baratear o processo”, diz.
Além disso, modelos de pagamento inovadores podem ajudar. Em alguns países, hospitais só recebem o valor integral se o paciente tiver boa resposta. Fiocruz e Instituto Butantan já realizam estudos clínicos com produção nacional de células CAR-T, envolvendo pacientes brasileiros.
O futuro: tornar o câncer uma doença crônica
Apesar das promessas, a integração do Brasil à cadeia global de terapias celulares ainda enfrenta obstáculos. O principal deles é o financiamento. Para especialistas, porém, o esforço vale a pena.
“Acho difícil que encontremos uma cura universal para o câncer, como foi com antibióticos. Mas é possível cronificar a doença, como já fazemos com o HIV”, diz Stefani. “Esse pode ser o início de uma nova era para a oncologia.”
A possível incorporação da terapia celular pelo SUS representa mais do que um avanço técnico. É uma aposta estratégica em soberania científica e acesso equitativo à saúde. Mas, para que saia do papel, será preciso mais do que células modificadas. Será necessário vontade política, planejamento e recursos.





























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Palmas!