CineOP chega ao fim com humor, memória e debate

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A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto; muita coisa pode ser vista no final de semana. Fotos - Universo Produção - Divulgação
A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto; muita coisa pode ser vista no final de semana. Fotos - Universo Produção - Divulgação

A cidade histórica de Ouro Preto vive os últimos dias da 20ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. Até o dia 30 de junho, segunda-feira, o público ainda pode aproveitar uma programação gratuita e intensa, que reúne encontros estratégicos e debates sobre memória, preservação e educação e, claro, exibição de de muitos filmes. A mostra reafirma sua identidade única: é o único festival brasileiro dedicado à preservação audiovisual, à história do cinema e à formação crítica de novos públicos.

Este ano, a CineOP celebra duas décadas como referência nacional e internacional, oferecendo uma experiência cinematográfica que conecta passado, presente e futuro. Com atividades presenciais e exibições também na plataforma www.cineop.com.br, o evento reafirma seu compromisso com o acesso democrático à cultura, à valorização da memória e à construção de políticas públicas para o setor audiovisual.

Humor feminino é foco da temática histórica

A mostra temática histórica deste ano provoca uma reflexão urgente: o lugar das mulheres no humor brasileiro. Com curadoria de Cleber Eduardo e Juliana Gusman, o eixo destaca como o riso — quando protagonizado e criado por mulheres — se torna ferramenta política. Ao mesmo tempo em que diverte, questiona e rompe com estereótipos de gênero. Essa virada de chave histórica é evidente em filmes como A Mulher Fatal Encontra o Homem Ideal (Carla Camurati) e A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti (Anna Muylaert), exibidos na sessão de abertura.

Nesse contexto, a homenagem à atriz Marisa Orth, conhecida por sua versatilidade e por dar vida a personagens que desafiam padrões femininos, ganha ainda mais significado. Para os curadores, Marisa simboliza a força e elasticidade do humor feito por mulheres, que diverte enquanto reflete sobre a condição feminina na mídia e na sociedade.

Atriz Marisa Orth é uma das homenageadas da mostra

Preservação é alma do cinema brasileiro

Na temática preservação, a curadoria de José Quental e Vivian Malusá resgata e reafirma a urgência de se cuidar da memória audiovisual brasileira. A programação valoriza profissionais e instituições que garantem a existência de um cinema com história, como o CTAv, a Cinemateca de Curitiba e o estúdio Cinédia. Filmes restaurados como Alô Alô Carnaval (1936), protagonizado por Carmen Miranda, e A Mulher de Todos (1969), com Helena Ignez, voltam à cena em cópias remasterizadas.

Uma das principais novidades é o Prêmio Preservação, que reconhece a trajetória do professor João Luiz Vieira. Seu trabalho no LUPA – Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual – tem sido fundamental para consolidar redes de acervos regionais e amadores no país. Essa iniciativa marca um novo capítulo na luta pela valorização da memória fílmica brasileira.

Além disso, o debate “Preservação: a Alma do Audiovisual Brasileiro”, com participação de autoridades como Jandira Feghali e Paulo Alcoforado (Ancine), aponta caminhos para enfrentar os desafios contemporâneos da área, inclusive frente à crise climática, tema de uma das rodas de conversa.

Educação como espaço de transformação social

Sob o tema “Lugares de Memória: Acervos e Acessos”, a Mostra Educação propõe um mergulho nas escolas como territórios vivos de memória e criação audiovisual. A curadoria da Rede Kino reuniu curtas produzidos por estudantes de todo o Brasil e América Latina, todos com até três minutos. As obras tratam de afetos, ancestralidade, identidade e pertencimento.

A novidade da edição é o Prêmio Cinema e Educação, entregue à socióloga Maria Angélica Santos, referência na alfabetização audiovisual. Sua atuação em Porto Alegre e sua defesa da implementação da Lei 13.006/2014, que exige a exibição de filmes brasileiros nas escolas, têm sido decisivas para fortalecer a presença do cinema no ambiente educacional.

A programação também conta com sessões como Mostrinha e Cine-Escola, voltadas ao público infantil e juvenil, além de debates como “Acervos e Curadorias no Programa Nacional de Cinema na Escola”. A ideia é conectar acervo, política pública e formação crítica.

Mostra Competitiva valoriza o uso criativo de arquivos

Outra inovação é a Mostra Competitiva Contemporânea, “Arquivos em Questão”, com cinco longas que ressignificam imagens históricas e pessoais. Filmes como Ruminantes (sobre Jean-Claude Bernardet) e Um Olhar Inquieto (sobre Jorge Bodanzky) transformam arquivos em linguagem, em uma estética que mistura passado e futuro. O júri escolhe, neste fim de semana, o vencedor do Troféu Vila Rica.

Em paralelo, a mostra “Construindo Memórias” apresenta obras como 3 Obás de Xangô e O Silêncio de Eva, que abordam figuras centrais da cultura brasileira e revelam novas facetas da história por meio do cinema.

Muito além dos filmes: arte, oficinas e cortejos

A CineOP 2025 vai além da tela. Nesta reta final, o público pode participar de sete oficinas, masterclasses com especialistas internacionais e vivenciar momentos únicos como o Cortejo da Arte (sábado, 28/6) e o Arraiá da CineOP (domingo, 29/6). À noite, o Sesc Cine Lounge Show traz música, DJs e performances.

Além disso, 20 livros serão lançados com estudos sobre cinema, preservação e práticas educativas. Uma exposição no Centro de Convenções relembra os marcos dos 20 anos da CineOP, conectando temas, imagens e lutas que marcaram duas décadas de história.

Última chance para viver a CineOP

Com sua programação robusta, a 20ª CineOP reafirma seu papel como mais que um festival: é um espaço de formação, memória e articulação política. Este fim de semana é a última oportunidade para vivenciar essa celebração de cultura, história e resistência em forma de cinema. Em Ouro Preto e no mundo digital, o convite está feito. A memória continua em movimento.

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