Fungo da tumba de faraó pode tratar leucemia

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Fungo descoberto em tumba de faraó pode ser arma contra leucemia. Imagem - Wikipedia
Fungo descoberto em tumba de faraó pode ser arma contra leucemia. Imagem - Wikipedia

O que um dia foi símbolo de morte, hoje aponta para a cura, portanto, para a vida. O fungo Aspergillus flavus, encontrado na tumba do faraó Tutancâmon e associado a mortes misteriosas de arqueólogos nos anos 1920, acaba de ser redescoberto pela ciência como potente agente anticancerígeno, com potencial para tratar a leucemia.

Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, conseguiram modificar moléculas desse fungo tóxico, transformando-as em compostos com forte ação contra células de leucemia humana. O estudo foi publicado na revista Nature Chemical Biology.

De maldição egípcia a esperança na medicina

O A. flavus ficou conhecido após a abertura da câmara funerária de Tutancâmon, em 1922. Após o feito liderado por Howard Carter, vários membros da equipe de escavação morreram prematuramente, alimentando a lenda da “maldição do faraó”. Décadas depois, cientistas apontaram os esporos tóxicos do fungo, presentes na tumba por séculos, como possíveis causadores dessas mortes.

Casos semelhantes ocorreram na Polônia, nos anos 1970, durante a abertura da sepultura do rei Casimiro IV. Novamente, o fungo foi identificado como o agente patogênico por trás de mortes súbitas de cientistas.

Agora, o mesmo microrganismo ganha nova reputação. A equipe norte-americana analisou geneticamente diferentes cepas do fungo até chegar a quatro compostos peptídicos do tipo RiPPs. Estes peptídeos — produzidos por ribossomos e modificados para uso terapêutico — receberam o nome de asperigimicinas.

Composto seletivo e promissor contra leucemia

Duas das quatro asperigimicinas se mostraram eficazes contra células leucêmicas sem sofrer modificações. A terceira, enriquecida com um lipídio presente na geleia real, demonstrou efeito semelhante ao de medicamentos consagrados, como citarabina e daunorrubicina.

Os compostos atuam interrompendo a formação de microtúbulos, estruturas vitais para a multiplicação celular. Assim, bloqueiam a divisão descontrolada das células cancerígenas. Mais ainda, os testes indicaram alta seletividade: os compostos não afetam significativamente células de câncer de mama, fígado ou pulmão, tampouco microrganismos comuns.

Segundo a professora Sherry Gao, autora do estudo, “os fungos nos deram a penicilina, e agora mostram que ainda há muitos medicamentos naturais a serem descobertos”.

A equipe também identificou genes semelhantes em outros fungos, ampliando as perspectivas de novos tratamentos. Os próximos passos incluem testes em modelos animais, com vistas a futuros ensaios clínicos em humanos.

Da tumba dos faraós ao laboratório moderno, o A. flavus ressurge não como maldição, mas como esperança científica no combate ao câncer.

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