Nao sei você, mas não me sinto com a idade que tenho. Alma e corpo andam num eterno descompasso. Mistérios do DNA. Com meu pai também é assim. A idade insiste em pausá-lo. Mas o Velho Osvaldo não se rende. Não há tempestade, vento ou ventania que o façam envergar. Papai se recusa a outonar. É madeira de lei.
Na família tem mais gente que nem nós. Tia Aparecida é bem assim. Está completando a nonagésima volta em torno do sol. Mas quem disse que se aquieta? Pinta e borda como se não houvesse amanhã.
E como noventa anos não são noventa dias era preciso festejar. Mas aí veio a pandemia e brecou os planos. Foi então que a família decidiu registrar a riqueza da vida dessa mulher em um livro que leva o nome da homenageada. Ora Madalena, ora Aparecida. Ou seriam as duas numa só? A neta Carla afirma que sim. E eu concordo com a prima. Tia Aparecida é pecadora e santa, “deliciosamente paradoxal”.
Se no Papai nos agarramos à força da natureza enraizada no DNA, Carla optou por dar à avó o chão das árvores. “É como ela está impregnada em mim – uma mulher que tem os pés no chão e a estatura de um sonho. Na sua infância, Angico Branco (se desenvolve rápido). Na sua juventude, Quaresmeira (simples e bela). Na idade adulta, Aroeira (enverga, mas não quebra).”
A Carla está certíssima. Tia Aparecida é bem assim. Como o Velho Osvaldo, está sempre pronta para o que der e vier. Não importa a estação da vida. Inverno ou verão. Outono ou primavera. A coragem de viver está enraizada nos dois.
Mas que história é essa que é preciso coragem pra viver? Sim. Porque viver é perigoso. Essa verdade está eternizada em “Grande Sertão: Veredas”, obra magistral e definitiva de Guimarães Rosa.
“Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”
E se a prosa é sobre viver, sobre ter coragem, a memória vai pra além-mar e navega em direção a Fernando Pessoa. O poeta português mergulhou fundo pra beber na fonte de Pompeu, um general romano, que viveu no ano 106-48 AC. “Navigare necesse; vivere non est necesse”. A frase era dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra.
Se navegar é preciso no sentido de ser uma ciência precisa, viver nunca será assim. Viver é maravilhosamente (ou terrivelmente) impreciso. Depende de como a gente encara o desafio.
Tá. Entendi. Mas de onde é mesmo que esses dois nonagenários tiram tanta coragem? Durante muito tempo essa pergunta me deixou encafifada. Até que com Pablo Neruda fez-se a luz:
“… quero cinco coisas,
cinco raízes preferidas.
Uma é o amor sem fim.”
Viver intensamente e amar os seus. Penso que esse é o segredo de tanta longevidade.
Gilda, você está coberta de razão.
Amor! Amar! Se sentir amado! O amor, em toda sua flexão, em toda sua extensão, com toda sua emoção será sempre a única verdade sobre como viver e se sentir vivo!!
Beijos, amada!