Cura do corpo e do espírito

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Imagem - Pixabay
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O outono chegou discretamente como quem convida ao recolhimento. É nesse clima que o chá ganha protagonismo: uma xícara quente entre as mãos, o aroma que sobe e aquece a alma, o gesto simples que lembra colo de mãe, afago de avó.
O chá me leva direto para o tempo da delicadeza. No quintal da casa centenária, as ervas eram protagonistas. Meus avós cultivavam uma horta pequena a meio caminho do Rio Pará. A hortelã convivia lado a lado com o funcho. Havia também alecrim, capim-cidreira e poejo.
Essas lembranças se ampliam nas histórias do meu irmão Beto. As visitas ao Zé do Vico eram “de lei”. Se adoecia, nem pensar em remédio de farmácia: havia o saber ancestral. Papai ia junto. E entre doses de cachaça envelhecida e a degustação da carne de panela preparada por dona Carmen, Zé do Vico indicava chás e raízes para aliviar as dores do corpo. O cerrado era sua farmácia viva. Cada visita era mais que consulta: era encontro de fé, conversa demorada e aprendizado silencioso sobre o poder das ervas aromáticas e medicinais.
Curioso é que um dia desses reencontrei uma erva da infância em outro cenário. Na Galeria São Vicente, no centro de Belo Horizonte, os clientes do restaurante Tom são recebidos com um drink. A base da bebida é o poejo. Confesso que nas duas vezes em que estive por lá me senti acolhida com esse gesto. Uma delicadeza que poderia ser traduzida como: “aqui você é bem-vinda; aqui há cuidado”.
A verdade é que esse drink não alcoólico mexeu comigo. Me levou direto para a horta da infância. O frescor do poejo desperta o paladar e carrega histórias de cura e acolhimento. O chá era “tiro e queda” para acalmar o choro dos bebês da família. Milagre? Nada disso. O poejo, graças ao efeito expectorante, ajuda a aliviar sintomas de gripe, bronquite, coqueluche e tosse. E mais: melhora a digestão, combate gases e pode aliviar cólicas intestinais.
Assim como o poejo, a hortelã também guardava segredos de cura e sabor na farmácia da avó. O chá dessa folhinha aromática e mentolada era usado para aliviar dores de barriga, gases, má digestão e até os sintomas de gripe dos netos. Se fazia parte da farmácia ancestral, também brilhava na cozinha: seu sabor mentolado trazia, e ainda traz, frescor ao quibe. Cru, frito ou assado, não importa: a hortelã continua sendo indispensável na nossa mesa.
E se a hortelã oferecia (e ainda oferece) frescor, o alecrim chegava com intensidade: perfume, memória e cuidado. Mais que tempero, é memória. Na cozinha, dá um toque a mais nas carnes, pães e molhos, conferindo um sabor que aquece e desperta. No corpo, guarda propriedades terapêuticas que fortalecem a memória, aliviam a digestão e estimulam a circulação. É erva que atravessa gerações, presente tanto na horta da nossa avó quanto nas receitas contemporâneas. Lembra que a simplicidade da natureza pode ser ao mesmo tempo remédio e poesia.
Mas havia também as ervas da fé. A arruda sempre lembra Dona Izolina e suas rezas de proteção. Vovó Cocota sempre recorria à comadre para curar ventre virado, mau-olhado, espinhela caída, quebrante e outras mazelas dos netos. A reza vinha acompanhada do perfume da arruda, do alecrim, da guiné e do manjericão, ervas escolhidas não apenas por suas propriedades medicinais, mas também pelo poder simbólico de proteção espiritual. Cada folha que roçava a pele era gesto de cuidado, cada aroma que se espalhava pela casa era promessa de equilíbrio. No ritual simples e ancestral, a fé se misturava à natureza, e a oração de cura se tornava poesia de afeto e equilíbrio.
Essas mesmas ervas atravessavam o cotidiano e chegavam às celebrações religiosas. Na Semana Santa, enfeitavam o andor do Senhor Morto e, em maio, após a coroação de Nossa Senhora, o perfume do alecrim e do manjericão se misturava ao cheiro das mexericas e laranjas leiloadas no adro da Igreja Matriz.
Mas, voltando ao chá, não se descuide. Seu consumo também pede cuidado. A automedicação pode transformar o afeto em risco: uma dose forte demais, uma planta confundida, uma interação perigosa com outros remédios. O que era para ser abraço pode se tornar espinho.

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