Mães relatam como bombeiros salvaram a vida dos filhos

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A sargento Patrícia e o soldado Júnior, bombeiros de Unaí, com a pequena Alice | Foto: Arquivo pessoal

“Eu gosto da Pipícia (sic) e do Júnior. Estou com saudades”, diz a pequena Alice, de 3 anos, em um vídeo destinado à sargento Patrícia Pereira e ao soldado Junior Epifânio, do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) de Unaí (MG). Em 2015, aos 2 meses de idade, os militares salvaram a vida de Alice, acometida de uma severa parada respiratória.

“Eu estava em uma reunião na escola do meu filho do meio quando minha mãe ligou dizendo que ia levar a Alice para o hospital, que ela estava engasgada. Ela e meu pai tinham tentado de tudo em casa e não conseguiram resolver. Fui correndo para casa, cheguei e o meu pai estava chorando no portão, não conseguia nem me responder. Saí desesperada para o hospital, quando alguém me ligou e disse que não tinha dado tempo nem de chegar lá. Que eles estavam no Corpo de Bombeiros tentando reanimar a Alice. Fui para lá na hora”, conta a mãe da Alice, a funcionária pública Renilda de Sousa Duarte, de 42 anos.

Ao chegar ao 3º Pelotão do Corpo de Bombeiros Militar, a cena era preocupante: a sargento Patrícia e o soldado Junior faziam os procedimentos para reanimar Alice já havia alguns minutos, sem sucesso. “Lembro de ouvir a sargento ficar repetindo com o Júnior: vamos, vamos, vamos! E ele fazia massagem, revezava com a Patrícia, e nada. Foi quando, depois de algum tempo, a Alice chorou. A sargento a entregou a mim e falou para eu levá-la na mesma hora para o hospital, já que ela tinha demorado bastante tempo para voltar.”

No hospital, os médicos avaliaram a bebê, que estava sem sequelas. Após a alta, ao chegar novamente em casa, Renilda resolveu levar um presente aos militares, como forma de agradecimento.

“Sei que eles socorrem muita gente, atendem muitos casos. Mas fiz questão de ir agradecê-los, e a gente foi muito bem recebido, porque eles estavam comemorando aquela vida. Era uma alegria só”, diz Renilda. No mesmo dia, os militares se ofereceram para ensinar Renilda e aos avós de Alice os primeiros socorros em caso de novo engasgamento. Ali começava uma amizade e um vínculo que ninguém teria imaginado.

“Eu passava na porta do pelotão, levava a menina para eles verem. Ela foi crescendo, eu chegava lá e o pessoal já sabia quem era a Alice. E foi criando aquele vínculo. No primeiro aniversário dela, eu os convidei e eles vieram. No aniversário de 2 aninhos, como eu sempre contava para Alice sobre o resgate dela, e ela via o carinho dos tios Junior e ‘Pipícia’, ela me pediu para se vestir de bombeiro.”

Renilda procurou o quartel para saber onde os uniformes eram confeccionados. Descobriu que eram feitos em outra cidade, mas correu atrás e conseguiu fazer a farda da pequena. “Escrito Alice e tudo direitinho. Mandei o convite para eles e não contei o tema do aniversário. Quando eles chegaram, ficaram muito emocionados. Para mim, eles são muito importantes. São da família”, diz a mãe, que recebe visitas constantes dos militares.

Há dez anos no CBMMG, a sargento Patrícia Pereira conta que não mora mais em Unaí, mas sempre que pode percorre os 450 km entre Uberlândia e a cidade para visitá-la.

“Lembro do dia em que a atendemos. Demorou para ela reagir, eu já estava ficando aflita. Na hora em que ela chorou foi um alívio. Fiquei muito amiga da Renilda, dos avós da Alice, da irmã dela, a Brenda. A gente conversa pelas redes sociais, ela me manda fotos, vídeos, áudios. Nunca imaginei criar um vínculo assim de uma ocorrência, não é sempre que a gente consegue manter contato. Mas a Renilda ficou muito grata, e eu fui criando amor pela Alice. Sempre que posso venho vê-las”, conta.

“Filhos” dos bombeiros

Muito além de atendimentos como os da Alice, a bebês e recém-nascidos, o Corpo de Bombeiros Militar também é responsável pela chegada de muitos deles ao mundo. Segundo dados estatísticos da corporação, foram 2.162 atendimentos a parturientes e pacientes obstetrícias no Estado em 2017. Uma média de quase 6 partos/atendimentos por dia em Minas Gerais. Já em 2018 foram atendidas 1.930 gestantes entre 1º de janeiro e 15 de novembro.

Assim, os partos são uma rotina na corporação. Casos como o da Claudiane Vieira, 23 anos, de Araxá, no Triângulo Mineiro. No dia 30 de janeiro de 2017, ela foi atendida pelo Corpo de Bombeiros em casa, com um parto prematuro.

Segundo sargento à época — hoje ele está no Curso de Habilitação de Oficiais para se tornar tenente —, Marcelo Caixeta atendeu a ocorrência.

“Fomos chamados porque a mãe estava com uma dor na barriga, achamos que seria um atendimento à parturiente normal. Chegando lá, a fase expulsória já tinha sido feita e o Arthur estava preso pelo cordão umbilical. O bebê nasceu com 6 meses de gestação e muito abaixo do peso. Foi o menor bebê que eu já vi. A gente sabia que era um caso grave, que tinha poucas chances de sobreviver. Ele respirava com dificuldade, tinha aspirado secreção”, relata.

Os bombeiros fizeram o atendimento e o encaminharam ao hospital, onde ficou internado na UTI Neonatal. “Quando ele completou 2 meses, visitamos o bebê no hospital, levamos presentinhos. Esse foi um caso simbólico para mim. É a melhor sensação de todas, porque a gente lida com muito desastre, morte. Então, alguns casos nos marcam pelo resto da vida, como foi o do Arthur. Quis manter o vínculo com ele porque a gente acaba querendo contribuir de alguma forma, mesmo que seja só com a presença.”

Para a mãe, Claudiane, o militar será sempre o anjo da guarda do Arthur. “Eu acho isso muito bonito. Se não fosse por eles, eu não sei o que seria do meu bebê naquela hora, porque ele nasceu muito frágil. No dia, eu fiquei em estado de choque. Hoje, o Arthur está bem graças a eles. Quero que eles mantenham contato sempre”, destaca.

Reencontro 15 anos depois

Era uma manhã de domingo, 14 de maio de 2002. Uma gestante de Ituiutaba, também no Triângulo, começou a sentir fortes contrações e entrou em trabalho de parto em sua residência. Naquele momento de aflição, a mulher não teve dúvidas: ligou para o Corpo de Bombeiros.

Suzana Gonçalves relembra que os militares chegaram rapidamente, prestaram os primeiros socorros e a encaminharam à maternidade. “O atendimento dos bombeiros foi fundamental para a minha vida e da minha filha Giovana”, diz.

O tenente Wender com a mãe e filha em Ituiutaba | Foto: Divulgação/CBMMB

Pouco tempo depois do parto, ela se mudou para o Mato Grosso, onde reside até hoje. Em agosto de 2017, 15 anos depois, ao visitar Ituiutaba, mãe e filha foram até o pelotão para agradecer pelo atendimento, causando a surpresa do Tenente Wender, que fez o atendimento.

“Ela chegou, começou a contar o caso para o pessoal que estava aqui, e eles me chamaram. Nos reencontramos. Lembro perfeitamente que ela estava sozinha quando sentiu as contrações e fez o chamado, que graças a Deus deu certo”, relata Caixeta, que hoje está aposentado.

“Fiquei 30 anos no Corpo de Bombeiros. A gente atende muitos casos de parto, mas dá um baque quando acontece um reencontro desses. Você vai lá, faz o seu trabalho, não pensa em retorno. Ver a gratidão de mãe e filha, 15 anos depois poder recordar aquele momento é uma alegria. Você vê, aí, a diferença que nosso trabalho fez. Trazer a vida é a coisa mais positiva que existe”, diz o militar reformado.

Com informações da Agência Minas

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